Portugal a menos, Quénia a mais

Segunda, 29 Março 2010
Acompanhando todo o Mundial de Corta-Mato de perto, João Pateira traduz para Portugual as suas sensações enquanto repórter, mas também como amante da especialidade de corta-mato.

As provas dos juniores pecam apenas por serem tão curtas. Tanto no sector feminino como no masculino acabámos por ficar com a sensação de que podia ter havido mais.
Tal como mais tarde veio a acontecer com os séniores, foram quatro as selecções que dominaram desde o início: Quénia, Etiópia, Eritreia e Uganda.

Para os seniores a competitividade é maior e mais aberta mas a nível dos juniores ainda há muito espaço para tácticas de equipa. O Quénia foi um perfeito exemplo disso mesmo e como se costuma dizer na gíria do atletismo, quenianos e quenianas “partiram tudo” e não deixaram hipóteses a ninguém.

Mercy Cherono dominou a prova feminina com um arranque fortíssimo na última volta e Caleb Ndiku fez algo “a la” Paul Tergat e correu na frente desde o início. Uma táctica muito arriscada que permitiu que os adversários se aproximassem muito no final. No entanto Ndiku doseou o seu esforço na perfeição acabando por conquistar a primeira posição com todo o mérito. Como anteriormente referenciado pelo Atleta-Digital em ambas as provas o domínio queniano foi total. Todas as três medalhas individuais e 2 colectivas foram para atletas do Quénia.

Débora Santos, a júnior portuguesa, terá ficado satisfeita com o facto de a prova não ter sido mais longa. Ainda muito inexperiente a nível internacional, a atleta referiu a partida demasiado rápida como principal dificuldade. E, claro, encontrando-se isolada bem longe da frente, ao fim de uma volta tudo se tornou mais complicado. Foi uma questão de terminar a prova, aproveitar a experiência e começar a preparar o futuro.

Rui Pinto e José Costa, os juniores portugueses, ficaram muito satisfeitos com a sua prova. Enquanto José Costa correu uma prova regular e bem pensada, Rui Pinto fez o mesmo mas com um resultado final muito animador. Estes três atletas juniores são boas promessas para próximas edições mas é preocupante o facto de serem três... SÓ três...

A nível sénior a história foi muito diferente. Os vencedores? Do mesmo país. Mas a forma como as provas se desenrolaram e a prestação portuguesa foram distintas. A vitória de Emily Chebet sobre Linet Masai foi uma pequenina surpresa. Meselch Melkamu em terceiro era previsível mas Tirunesh Dibaba fora das medalhas não estava nos planos etíopes.Simplesmente imparáveis, as tácticas quenianas em cada uma das provas revelaram-se eficazes.

Muito cedo Dibaba ficou fora da discussão pelo pódio e já na última volta foi claro que era um assunto a resolver entre quenianas. Foi com todo o mérito que a selecção dos Estado Unidos da América conseguiu chegar ao bronze colectivo. Com Shalane Flanagan a terminar na 12ª posição, as americanas terminaram muito próximas e deixaram marroquinas e portuguesas a 51 pontos (!) de distância em quarto e quinto lugares, respectivamente.

Jéssica Augusto em 21º, Sara Moreira em 27º, Anália Rosa em 35º e Ana Dias (a eterna Ana Dias) em 44º correram bem mas, de acordo com as mesmas, não tão bem. Embora Fernando Fernandes, Chefe de Delegação, tivesse referido a ausência de Ana Dulce Félix (e também de Inês Monteiro) como factor que impediu melhor resultado colectivo as atletas tomaram a responsabilidade e Sara Moreira foi peremptória: “Somos sempre as mesmas, quase não há renovação. Não é desculpa a Dulce não ter estado presente. Nós é que devíamos ter corrido melhor. No ano passado fechámos em 22º e este ano a nossa primeira atleta foi 21ª. É necessário haver mais incentivos para os juniores continuarem a treinar quando chegam ao escalão sénior senão não temos atletas novos.” É certo que os Estados Unidos da América apresentaram uma selecção muito forte e que Marrocos é sempre um adversário a ter em conta mas, sem tirar o mérito a quem correu e deu tudo o que tinha, esperava-se mais de uma selecção portuguesa.

Chegados à última prova existiam duas perguntas que em pouco mais de trinta e seis minutos foram respondidas: irá o Quénia conseguir levar todas as medalhas de ouro? Conseguirá o Quénia, pela primeira vez desde 1999, conquistar o título individual masculino? As respostas foram: Sim e Sim! Mas não apenas “Sim”... Foi com autoridade.

Joseph Ebuya, que já este ano em Edimburgo tinha derrotado o multi-campeão Kenenisa Bekele, controlou sempre a corrida. Esteve na frente desde o início e, quando Teklemariam Medhin – da Eritreia - decidiu arriscar e acelerou de forma que o grupo da frente se desfez, apenas ele o seguiu. Na última volta Ebuya facilmente se desembaraçou do seu adversário vindo a ganhar com uns enormes seis segundos de vantagem.

Leonard Komon, do Quénia, fez aquilo que faz qualquer treinador proíbe aos seus atletas e celebrou o seu terceiro lugar levantando os braços a um metro da meta. Um metro conta e Moses Kipsiro, do Uganda, de prata no ano passado, preferiu o bronze ao quarto lugar e acreditou. Com uns últimos trinta metros frenéticos alcançou e ultrapassou Komon em cima da linha de meta para conquistar uma medalha individual para o Uganda.

Não se esperava nada de muito especial da selecção portuguesa. Havia apenas algum interesse em saber como Yousef El Kalai se portaria na sua primeira participação por Portugal e era previsto um resultado colectivo razoável. El Kalai correu muito bem. Arriscou, começou rápido, mas, apesar de perder alguns lugares, manteve um ritmo bastante regular e foi por larga margem o primeiro português na meta. Fernando Silva foi o segundo e considerou: “O ritmo foi muito mais forte do que esperava. Agora vou descansar cerca de um mês para depois me concentrar na Maratona.” Licínio Pimentel foi o terceiro português com uma prova bem calculada, de trás para a frente e Manuel Damião terminou com enorme garra num sprint a três que acabou por ganhar.

No final, Fernando Fernandes não estava propriamente contente. Faltou a medalha, mas mais do que isso faltou aquilo que era esperado, quase exigido. “As seniores portuguesas têm potencial para serem, claramente, as terceiras melhores do Mundo em termos colectivos. As americanas apresentaram uma equipa muito forte mas nós também somos fortes.”

No geral, a participação portuguesa foi regular.Este campeonato do mundo ficará na memória como o dia do domínio queniano. Há muito tempo que se preparavam para conseguir tal resultado e, ao fim de mais de uma década, conseguiram o seu objectivo.

Em Dezembro próximo Portugal organizará o Campeonato da Europa de Corta Mato. O Atleta-Digital estará lá para trazer todas as notícias e, esperamos, a selecção portuguesa estará lá para nos trazer grandes resultados.

Caleb Ndiku
Caleb Ndiku, em juniores masculinos, foi destaque da competição.

Festa do Quénia
Os quenianos juniores fizeram a festa, depois de colocarem quatro atletas nos quatro primeiros lugares.

Partida Feminina
Partida da prova feminina, em ritmos rápidos.

Emily Chebet
A chegada à meta da queniana Emily Chebet.

Selecção masculina
Selecção masculina portuguesa, acompanhada pelo multi-campeão, Paulo Guerra, que marcou presença em Bydgoszcz

Joseph Ebuya
O queniano Joseph Ebuya, a última medalha de Ouro individual alcançada pelo Quénia em Bydgoszcz.

Gebre Gebremariam
O ex-campeão do mundo, Gebre Gebremariam (Etiópia) demonstrou o seu fair-play no final, perante os atletas quenianos.

Por: João Pateira (texto)
Fotos: Eunice Tavares e Rafael Lopes / Atleta-Digital