[EURO14] Jéssica Augusto com medalha na Maratona

Sábado, 16 Agosto 2014
[EURO14] Jéssica Augusto com medalha na Maratona

Portuguesa alcançou a medalha que estava a faltar para as cores nacionais.

Uma prova de tática, persistência e paciência, para a portuguesa que arriscou manter a história portuguesa na mais mítica das provas do atletismo. 

A noite foi de chuva, o início da prova fez-se sem chuva, mas antes dos cinco quilómetros já chovia, com algum frio nas ruas de Zurique. Às atleta faltava aquecer os motores e enfrentar um dos percursos mais complicados em Maratonas decorridas nos mais recentes Europeus. Uma forte subida que levava as atletas a um dos pontos altos da cidade de Zurique foi uma das responsáveis pela criação de mais diferenças classificativas, mas onde se concentrou muito público, como se fosse uma espécie de Volta a França, mas em Zurique e numa Maratona.

A prova partiu com um grupo de cerca de dez unidades a sair na frente, nessa altura incluindo a presença da portuguesa Marisa Barros e com aparente alheamento de Jéssica Augusto, que ficou a correr mais atrás, não se interessando pelo ritmo que se levava na frente. ”Foi uma prova de relógio e temo-nos dado bem com isso”, disse Nogueira da Costa que viu Jéssica Augusto fazer uma prova de tática invulgar, mas com resultados de medalha. ”Tinha combinado que iria as duas primeiras voltas a gerir o esforço e ver como elas se comportavam na descida”, referenciou Jéssica Augusto, que terá constatado que o seu ganho em subida, era uma perda na descida seguinte, que gerou sempre algum receio na treinador da portuguesa: ”a longa descida poderia ter feito mossa”.

Cedo se percebia que a portuguesa corria para o conhecido “negative-split”, com a segunda parte da prova mais rápida do que a primeira metade. A portuguesa passou à meia-maratona em 1:12.50 minutos e até aos 35 quilómetros nunca andou mais do que 20 segundos distanciada da frente. Essa diferença acentuou-se com a mexida no ritmo, na frente da corrida, numa altura em que Jéssica Augusto já tinha deixado a turca Elvan Abeylegesse para trás, turca que ainda seria ultrapassada pela croata Lisa Nemec. As duas atletas (Christelle Daunay e Valeria Straneo) que sobraram de longos quilómetros na frente, de onde se atrasou Abeylegesse, acabariam por debater as duas mais importantes medalhas, luta que ficou guardada para os últimos três quilómetros de prova. Esteve melhor Daunay, que aos 39 anos de idade alcançou o seu resultado de carreira, com o título de campeã da Europa de Maratona. A marca que alcançou, de 2:25.14 horas, não só é um grande registo para o estilo de percurso que as atletas enfrentaram, como é mesmo o recorde dos campeonatods. Às 2:25.27 horas de prova chegaria Straneo, que alcança a Prata que tinha também alcançado no Mundial de há um ano atrás, um segundo mais rápida que o circuito de Moscovo.

Atrás disso aparece a história de Jéssica Augusto, a tentar mostrar, 16 anos depois da medalha de Manuela Machado, que Portugal ainda sabe manter a tradição na Maratona, uma história que a portuguesa faz questão de perseguir. A atleta terminou hoje com o tempo de 2:25.41 horas, a melhor marca que uma portuguesa fez na história dos Europeus de Atletismo, também aqui um marco interessante, além de ter sido a primeira portuguesa a obter no seu historial medalhas tanto em pista, como em estrada, feito nunca obtido nem por Rosa Mota, nem por Manuela Machado.

”Já estava contente quando pensava ser terceira classificada”, indicou Jéssica Augusto que evitou o risco de ver o “pássaro” a voar. Admitindo que esta foi ”a medalha mais difícil de conquistar”, não sente, contudo, ”que tenha salvo a honra do convento”, nesta que foi a primeira medalha de Portugal nesta competição e que era provavelmente a última grande oportunidade de não quebrar 32 anos de história que indicam que Portugal alcança sempre, pelo menos, uma medalha por edição, contando agora com a 28ª medalha da sua história. Tendo contactado com Fernanda Ribeiro, uma das responsáveis para que a atleta treine agora com Nogueira da Costa, Jéssica terá cumprido o desejo da campeã olímpica: ”não a fazer sofrer muito”.

Nogueira da Costa, que ontem demonstrou ser supersticioso, hoje esteve mais tranquilo na análise da mais recente medalhada portuguesa e revelou até o caminho percorrido até aqui, relembrando a aptência para os pormenores de José Pedrosa, o treinador de Rosa Mota: ”Tentei seguir alguns exemplos dele”. E um dos exemplos foi a análise do percurso. ”Estivemos há um mês a estudar o percurso, para estudar esta tática”, uma visita que foi feita no local onde hoje tudo decorreu. O técnico português, aos 35 quilómetros, até chegou a acreditar no título. Admitindo que para o ano, em Pequim, não deve alinhar na prova de Maratona do Mundial de Atletismo, o técnico aponta agora tudo para o Rio de Janeiro. Sobre a medalha de hoje, Nogueira da Costa não tem dúvidas, que Sameiro Araújo foi a base da formação de Jéssica Augusto, tal como João Campos, anterior treinador, faz parte desta medalha, tendo ambos marcado presença no percurso da prova.

PORTUGAL CHEGOU À PRIMEIRA MEDALHA EM TAÇA DA EUROPA DE MARATONA

Em prova não estava só Jéssica Augusto, mas outras três atletas que, no conjunto, procuravam uma medalha na Taça da Europa de Maratona, onde Portugal nunca tinha alcançado qualquer medalha no setor feminino. As atletas portuguesas correram sempre no top-20, exceção feita a Doroteia Peixoto, que não só andou sempre afastada do top-20, como acabaria a desistir aos 30 quilómetros. ”Tive dor de burro desde os 4 quilómetros, ainda tentei, mas acabei por desistir. Já não conseguia respirar...”

Uma das sensações do dia seria Filomena Costa, atleta de 29 anos de idade que geriu a sua subida na classificação de forma controlada. Do 22º lugar aos 5 quilómetros, a atleta acabaria por chegar no 15º lugar, com 2:32.50 horas, como segunda melhor portuguesa em estrada, depois de ultrapassar Marisa Barros. Também recém-mamã, Filomena Costa, enfermeira de profissão, considera este o seu melhor resultado da época, admitindo que ”valeu o esforço”, da gestão do tempo e do treino que teve de fazer para se apresentar em forma em Zurique. Longe do sexto lugar obtido em Barcelona, no ano de 2010, Marisa Barros apareceu hoje no grupo da frente, mas aos poucos foi-se eclipsando da dianteira de prova. Terá sentido a famosa “parede” dos 35 quilómetros, momento a partir do qual a Maratona é realmente sentida como tal e do 13º lugar a essa altura acabaria por ter uma queda classificativa até aos 20º lugar final, com o tempo de 2:34.35 horas. ”Foi um regresso muito sofrido”, começou por indicar a atleta portuguesa que ”se não fosse pela equipa ir bem classificada se calhar teria desistido”. Com uma carreira que tem sido afetada pelos tendões da atleta, a atleta julga que estará finalmente no bom caminho para a recuperação a 100%, com massagista e osteopata. Para hoje a portuguesa foi peça fundamental no fecho da equipa, até porque Doroteia Peixoto tinha desistido aos 30 quilómetros de prova, antes de acontecerem os ritmos mais lentos para Marisa Barros.

Pódio da MAratona

Na classificação final da Taça da Europa de Maratona, pouco depois das duas atletas suiças que integravam o pelotão (Nicola Spirig e Patricia Buhler) terem descolado, Portugal já ocupava o segundo lugar com algum destaque, mas sempre longe da Itália, que conservou e ampliou uma vantagem de dois minutos, de uma equipa bastante forte, composta pela vencedora (Valeria Straneo) e ainda por duas experientes atletas, Anna Incerti (2:29.58) e Nadia Ejjafini (2:32.34). Com Filomena Costa e Marisa Barros mais atrasadas que as segunda e terceira melhores italianas, Portugal chegou ao fim da Taça da Europa com a medalha de Prata, a 5.07 minutos da equipa italiana, mas com quase nove minutos de vantagem sobre a medalha de Bronze coletiva, obtida pela seleção russa, que tinha sido há quatro anos campeã.

Em suma, uma manhã onde muitos portugueses estiveram no percurso de prova, respondendo positivamente à presença das maratonistas portuguesas e naquela que foi a primeira medalha portuguesa nestes Europeus. Se esta medalha ajudou a manter uma tradição de décadas, Portugal caminha contudo para níveis de resultados mais próximos de Estugarda de 1986, altura em que a seleção nacional tinha uma dimensão reduzida a metade daquela que marca presença este ano em Zurique.

RESULTADOS (Maratona Fem – Final):

1. Christelle Daunay (França) – 2:25.14
2. Valeria Straneo (Itália) – 2:25.17
3. Jéssica Augusto (Portugal) – 2:25.41
(...)
15. Filomena Costa (Portugal) – 2:32.50
20. Marisa Barros (Portugal) – 2:34.35
Doroteia Peixoto (Portugal) - desistente

RESULTADOS (Taça da Europa de Maratona):

1. Itália (Valeria Straneo, Anna Incerti, Nadia Ejjafini) - 7:27.59
2. Portugal (Jéssica Augusto, Filomena Costa, Marisa Barros) - 7:33.06
3. Rússia (Natalya Puchkova, Albina Mayorova, Gulnara Vygovskaya) - 7:42.03
4. Lituânia (Rasa Drazdauskaite, Remalda Kergyte, Zivile Balciunaite) - 7:45.38
5. Suiça (Maja Neuenschwander, Nicola Spirig, Patricia Buhler) - 7:47.01

Filomena Costa

Marisa Barros

Doroteia Peixoto

Enviados Especiais: Edgar Barreira (texto) e Filipe Oliveira (fotos)

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