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Sara Moreira foi a melhor portuguesa das três.
Aquilo que podia ser o triplicar das possibilidades nacionais de medalha, foi afinal uma prova muito dura principalmente nas últimas três voltas. Solavancos e algum sangue não foram bons para portuguesas.
Se dentro da comitiva portuguesa havia quem defendesse as suas próprias possibilidades de medalha, seriam Sara Moreira e Dulce Félix as mais confiantes, como ambas assumiram em conferência de imprensa ontem. Se dentro da corrida de hoje houve quem nunca quis largar a frente da prova foram as duas atletas, mas nenhuma quis tomar o risco da surpresa ou da supremacia. Por um lado Sara Moreira não se sentia tão rápida como foi no passado, nove meses depois de ser mãe, cinco meses depois de regressar a sério aos treinos. Por outro Dulce Félix não se sentiu capaz de responder à letra, nem acreditou na estratégia de há dois anos, em Helsínquia, quando se sagtrou campeã europeia. Esta terá sido a história da ausência de medalha.
Em detalhe, por alguns momentos as duas portuguesas estiveram na frente da corrida e as duas tentaram estar juntas, formando um pequeno bloco português que combatia, entre outros, o bloco francês. Ali ao lado Almensch Bekele (Bélgica) ainda tentou ser uma surpresa agradável para a competição, acelerando o ritmo a 16 voltas do fim. Mas esse ritmo, que foi lento, chegou para dobrar a primeira atleta à 13ª volta e pouco mais. Aos16.27 minutos as duas mais proeminentes portuguesas em provas passavam aos 5000 metros e mais para trás, mas dentro da corrida, vinha Salomé Rocha, dois segundos depois. Inconformada com o ritmo e com os solavancos, Dulce Félix veio para a frente a oito voltas do fim, mas admitiria no final que esse nunca tinha sido um desejo seu. ”Estava à espera que alguma das atletas pegasse na corrida e que me viesse ajudar”, clarifiou a anterior campeã europeia que correndo com o dorsal dourado, tentava preservá-lo a todo o custo. E o custo surgiu mais tarde, após um esforço conjunto de Dulce Félix e Sara Moreira de puxarem pelo grupo a três voltas do fim, numa corrida tática, enervante e sangrenta, como algumas das pernas a correr evidenciavam. A duas voltas da frente Dulce Félix subitamente quebra o seu ritmo, desfaz o sonho das duas medalhas portuguesas nos 10000 metros e o desenho da história modificou-se. Clémence Calvin (França), Jo Pavey (Grã-Bretanha) e a portuguesa Sara Moreira ficam num top-3 que parecia ter já medalhas no peito. Infelizmente para Portugal isso só não aconteceu com Sara Moreira, que quebrou quando Pavey imprime um ritmo fortíssimo na frente, para vingar a derrota pesada de há dois anos. A vitória foi obtida com 32.22,39 minutos, contra os 32.23,58 minutos de Calvin, que acabaria por ser a comandante do bloco francês, que trouxe Laila Traby (32.26,03 minutos) para a medalha de Bronze.

”Não saio triste, saio de cabeça levantada” disse Sara Moreira, conformada com o resultado final que lhe resultou em 5º lugar, com o tempo de 32.30,12 minutos. ”Queria mais, mas a última volta custou-me imenso”, referiu a fundista que nunca esperou uma prova tão desritmada e tão tática: ”Pensava que até aos 6 ou 7 quilómetros alguma atleta pegava na corrida”. Mais atrás, bem mais desgastada, terminaria Dulce Félix, no 12º lugar (32.35,90 minutos), uma classificação não habitual, mas de quem esperava velocidade na corrida: ”Não consigo mudar assim de ritmos”. Com esta situação coloca até em dúvida se participará nos 5000 metros, ao contrário de Sara Moreira que já confirmou esse seu desejo. ”Vou analisar com a minha treinadora se participarei nos 5000 metros”, disse, sem esconder a tristeza de perder o título dos 10000 metros em Zurique, mas sem esquecer o caminho que a trouxe até ao Europeu.
Longe desta luta, mas com a primeira participação em 10000 metros, Salomé Rocha, que se classificou no 16º lugar, com 33.05,49 minutos, chegou mais alegre à zona mista, mais não fosse por se sentir adequada à distância e ficando contente com a transferência dos 3000 metros obstáculos para as 25 voltas à pista. ”Tentei andar o máximo de tempo dentro do grupo”, disse Salomé Rocha no final, que considera esta experiência ”bastante boa”.
Terminou desta forma o dia português, um dia que até foi bastante positivo e que só pecou pelo pecado capital de se considerar que as medalhas eram mais prováveis do que em Helsínquia. Hoje nem foi repetida a história de 1994, quando Fernanda Ribeiro e Conceição Ferreira foram primeira e segunda classificadas, nem a história de 2012, quando Dulce Félix voltou a trazer Portugal para a estrada das medalhas na distância. Hoje a história acabou por ser igual a tantas outras, mas Portugal também não sai ferido desta prestação...apenas ficaram os “riscos” de sangue nas pernas das atletas, na dura batalha das 25 voltas à pista.
RESULTADOS (10000 m Fem. – Final)
1. Jo Pavey (Grã-Bretanha) – 32.22,39
2. Clémence Calvin (França) – 32.23,58
3. Laila Traby (França) – 32.26,03
(...)
5. Sara Moreira (Portugal) – 32.30,12
12. Dulce Félix (Portugal) – 32.35,90
16. Salomé Rocha (Portugal) – 33.05,49

Enviados Especiais: Edgar Barreira (texto) e Filipe Oliveira (fotos)
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