O meu (longo) 25 de Abril

Sexta, 25 Abril 2014
O meu (longo) 25 de Abril

O jornalista Arons de Carvalho conta-nos como foi há 40 anos.

No dia em que se assinala a data sobre o fim da Ditadura, desenterramos a história de Arons de Carvalho, um dos jornalistas com mais história sobre o atletismo em Portugal. 

Pedimos a Arons de Carvalho para contar a sua história da noite de dia 24 de abril, que foi contada ao jantar de uma das competições de pista coberta em Pombal. Um contador de histórias por natureza, Arons de Carvalho escreveu-nos um texto tão explícito e interessante, que não nos atrevemos alterá-lo ou referenciá-lo. Sugerimos que faça a sua leitura e tire as suas conclusões.

«Foi bem longo (e emocionante) o “meu” 25 de Abril de 1974, data há muito esperada. O meu pai era há vários anos um dos muitos exilados políticos (em Paris), não podendo vir a Portugal. E eu já escrevia para os jornais (no velho República) e tentava “fintar” a censura. O meu irmão já estava muito ligado aos meios oposicionistas e soube, na véspera, que seria naquela noite. Confirmou-me, através de um telefonema previamente combinado (“já chegou o L´Équipe?”, perguntei eu; “sim, chegou o de hoje”, respondeu ele, utilizando o diário desportivo francês que na altura assinávamos para ultrapassar eventuais escutas da PIDE). Nessa noite de 24 de Abril tinha uma reunião da então existente Comissão Nacional de Estatística da Federação, nas antigas instalações junto ao Campo Pequeno, onde agora está a Caixa Geral de Depósitos. Fui jantar a um restaurante lá próximo e, confesso, o nervosismo era tão grande, que a dada altura tive mesmo que ir “descarregar” à casa de banho. Da reunião só me lembro de um episódio. A dada altura, o António Matos Mina, que fora pela segunda vez chamado ao serviço militar, como oficial miliciano (quem por lá passara e não fora mobilizado estava suijeito a isso), disse algo que muito se ouvia por aqueles dias, na sequência do golpe falhado do 16 de Março: “parece que vai haver outra tentativa, mas só deve ser lá para Maio...”. Estremeci e respondi logo que não sabia se haveria mas que não deveria ser tão cedo...

Responde o Luís Lopes, atual comentador televisivo: “nunca me 'emborrachei' mas quando isto mudar...” Só me apeteceu dizer: “é hoje, é hoje!”. Mas, claro, calei-me e procurei mudar a conversa a acabar reunião o mais cedo possível.

Regressei a casa ansioso por saber pormenores. Não soube do “E depois do Adeus”, do Paulo de Carvalho, por volta das 22.55 horas. Mas, algum tempo depois, passou lá por casa um dos contactos do meu irmão, a avisar para ouvirmos a Rádio Renascença à meia-noite e 20 minutos, pois iria dar o Grândola. Era meia-noite e 22 minutos e são lidas as primeiras estrofes da canção.Ficámos entusiasmadíssimos e cada vez mais nervosos. Primeira reacção (estúpida mas incontrolável): fomos logo à varanda, para ver a revolução, os tiros, sei lá que mais! Claro, tudo calmíssimo. Caímos na realidade e regressámos à sala, para junto da rádio, que prosseguia a emissão com toda a (aparente) normalidade.

Passado algum tempo (bastante para a nossa ansiedade) - duas horas? três horas?, já não faço ideia -, voltam a tocar à campaínha: o contacto do meu irmão avisa para ouvirmos o Rádio Clube Português. Curiosamente, um dos animadores do programa que estavam a transmitir era Eduardo Horta, que era atleta do Benfica, e fora internacional no salto em altura. Mas, entretanto, o programa terminaria e nada de novo.

Foi uma longa espera. A dada altura, a minha mãe desistiu: “é mais um falhanço, já estou habituada, já foram tantas tentativas ao longo de todos estes anos, vou-me deitar, acordem-me se houver novidades”.

Houve novidade às 4h 25m da madugada: “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas...” Foi um balde de água fria! Pensávamos ouvir uma proclamação, tipo “Viva a Liberdade, Abaixo o Fascismo” e sai um comunicado a dizer para ficarmos em casa e a apelar às forças militarizadas para estarem quietas... Depois do choque inicial, a alegria de ver que algo por que há muito esperávamos estava mesmo a acontecer. Não mais deixámos de ouvir os comunicados, a dada altura começaram as marchas militares, depois as canções (proibidas) de intervenção. Às sete da manhã começámos a telefonar às pessoas amigas que, também elas, há muito esperavam por esse dia. Depois, foi todo esse longo (e glorioso) dia 25 de Abril, a libertação dos presos políticos, o regresso dos exilados (o meu pai chegou a 30 de Abril), o glorioso 1º de Maio. Dias inesquecíveis, dos mais felizes da minha vida!»


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Comentarios (3)add feed
Tocante testemunho! : João Lima
Excelente e tocante testemunho. Obrigado pela partilha!
Abril 26, 2014
um idiota : fito
uma besta quadrada vir aki testemunhar um assunto que nem tem nada a ver com o atletismo. este frustrado do desporto, k só sabe deitar os atletas a baixo nas noticias k escreve no record, é um dos tais k queria ver o atletismo de rastos.. ha muito tempo que devia estar na reforma e dar o lugar as pessoas serias. estes mafioso e os frustrados k os rodeiam um dia vai lhes cair a mascara..
Abril 26, 2014
gostei : lili
este gajo é do pior. será que aquele Eduardo é da família do horta..
pelo vistos parece que este senhor tem alguma ligação.
é só panelinhas!!!lol
Abril 26, 2014
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