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Portugal com poucos argumentos na batalha coletiva.
A Sérvia prepara-se para receber no próximo domingo o Europeu de Corta-Mato, num esforço coletivo de um país que acolhe o evento desportivo mais importante de sempre.
O Europeu de Corta-Mato visita este ano o 14º país, na sua 20ª edição, num historial que começou no ano de 1994, na histórica vila de Alnwick (Grã-Bretanha). Se numa primeira fase os crosses se disputaram na Europa mais ocidental, aos poucos a Associação Europeia de Atletismo tem apostado também nos países mais a Leste, um hábito que parece ser para ficar. Depois de Velenje (Eslovénia), em 2011 e de Budapeste (Hungria), em 2012, este ano é a vez de Belgrado (Sérvia), que além de acolher este Europeu, acolherá também a visita do presidente da IAAF, Lamine Diack, acompanhado do seu “vice” Sebastian Coe. Em 2014 a prova irá visitar Samokov (Bulgária).
E o evento foi preparado com todo o cuidado, localizado no Parque da Amizade, motivando a inscrição de muitos atletas, vindos de toda a Europa. 570 atletas inscritos de 37 países diferentes parecem ser motivo, desde já, de regozijo do organismo que tutela o atletismo europeu, promovendo maior participação dos países de Europa de Leste. Particularmente a seleção portuguesa não contribuiu para este enorme incremento de atletas, já que reduziu de 36 atletas, em 2012, para 24 atletas este ano.
E se a Sérvia se empenhou no acolhimento desta competição, a maior de sempre em solo sérvio, acompanhou esse esforço com a convocatória de 23 atletas, num país que andou sempre a reboque de alguns bons desempenhos individuais, onde se destaca a vitória de há um ano de Amela Terzic, no escalão de Juniores femininos. Este é o motivo para que as atenções sérvias sejam este ano no escalão de Sub-23 femininos, onde a sérvia se estreará.
Mas internacionalmente a primeira perda de grande valia é mesmo a de Sergiy Lebid, o grande campeão da história deste Europeu, que depois de 18 presenças e 12 medalhas parece definitivamente ter pendurado os bicos de crosse, para se dedicar às provas de estrada. O 15º lugar de há um ano atrás terá ditado uma parte da decisão desta lenda viva, a única que foi capaz de superar o número de vitórias e medalhas do português Paulo Guerra. Mas também a história portuguesa não é a mesma e promete continuar a não ser, ainda que se aguarde algo melhor do que o 11º lugar coletivo de há um ano atrás. Rui Pedro Silva pode ser mesmo a salvação na classificação individual, apesar de não se ter preparado especificamente para estar em Belgrado. Seja como for o terceiro lugar coletivo continuará a ser português depois de Belgrado, com a luta coletiva a ficar muito mais interessante entre França e Espanha, com os franceses a estarem para já na frente, com mais uma medalha de bronze que os espanhóis. E de França regressa Hassan Chahdi, que foi segundo classificado em 2012, enquanto Espanha parece este ano mais fragilizada, sem Carles Castillejo (5º em 2012) e Ayad Lamdassem (6º em 2012), ainda que faça regressar Alemayehu Bezabeh. O campeão de há um ano, o italiano Andreas Lalli, é também peça ausente, com esta seleção a poder fazer-se valer do bronze de 2012, Daniele Meucci.
A corrida feminina de séniores promete ser bem mais repetitiva, confirmadas que estão seis das sete melhores de 2012, em Budapeste. Neste lote encontra-se a portuguesa Dulce Félix que é, naturalmente, apontada como uma das favoritas a medalha, não fosse o facto de ter sido medalhada nas três últimas edições (3ª em 2010, 2ª em 2011 e 2012). Mas o outro facto bem presente é que a irlandesa Fionnuala Britton volta a marcar presença, ela que venceu as duas últimas edições. Nada disto belisca o estatuto que Portugal goza neste escalão, líder isolado nas contas individuais e coletivas. Se Dulce Félix conseguir a vitória em Belgrado, seria a 10ª medalha de Ouro individual em Séniores Femininos. Bastará, contudo, que chegue à medalha para ser uma das 4 atletas mais medalhadas de sempre em Europeu de Crosse. Mas pela seleção portuguesa há ainda a considerar a 12ª presença de Anália Rosa, igualando Ana Dias e Inês Monteiro no historial, a uma só presença das atletas mais participante de sempre no setor feminino, a britânica Hayley Yelling e a belga Anja Smolders. No plano internacional não deixa de ser estranha a ausência da Holanda e da sua terceira classificada de há um ano, Adrienne Herzog, que é uma das mais participantes de sempre. E o mais interessante que pode acontecer é até na coletiva, onde Portugal dificilmente estará, com a Irlanda a depender do virtuosismo de Britton, a única resistente da equipa do ano passado, a França na máxima força e a Grã-Bretanha a aparecer com uma equipa de renovação, onde constam ex-campeãs de outros escalões, nomeadamente Gemma Steel e Stephanie Twell.
Já se referenciou que o escalão de sub-23 femininos terá os holofotes ligados para Amela Terzic, mas no plano internacional os olhos estariam em Siffan Hassan, recém-naturalizada holandesa, recentemente vencedora do crosse de Tilburg, onde a portuguesa Dulce Félix foi segunda classificada. Nenhuma das atletas de pódio de 2012 marcará presença. Para a disputa coletiva não parece que Portugal possa acreditar a repetição aproximada do 4º lugar de há um ano, com duas das principais peças a subirem a séniores. A vitória, essa, por historial, seria já atribuída à Grã-Bretanha, que no ano passado, pela primeira vez, não venceu. Será que este ano a Rússia volta a repetir a graça? Este ano as britânicas têm a presença de Charlotte Purdue, enquanto a Rússia mantém a presença da quarta classificada de 2012, Gulshat Fazlitdinova. A medida de forças no escalão masculino será entre Grã-Bretanha e França, aqui na tentativa de uma das duas ficar com o primeiro lugar coletivo no historial do escalão. Em 2012 a França foi mais forte e para 2013 mantém a sua melhor peça individual, Romain Collenot-Spriet e ainda o melhor classificado junior há um ano, Djilali Bedrani. James Wilkinson irá chefiar os destinos da equipa britânica. Para Portugal pode existir uma tentativa de brilho individual de Rui Pinto e na coletiva a saída do 12º lugar que persegue as cores nacionais nas duas últimas edições.
Em juniores masculinos a batalha individual será também entre Grã-Bretanha e Rússia, na tentativa de que o medalheiro individual penda para a liderança dos britânico na história do evento. Mas coletivamente quem tem um título a defender, vindo de Budapeste, é a Rússia, com forte oposição francesa. Em femininos o mais provável é que a Grã-Bretanha volte a dominar, com uma vitória coletiva que não escapa desde 2010. E a sucessora provável da sérvia Amela Terzic, campeã no ano passado, é a segunda classificada de há um ano, Emelia Gorecka (Grã-Bretanha). Do lado nacional, Silvana Dias faz a sua despedida do escalão e prometerá a tentativa do top-30.
Mas se para Portugal a defesa da sua posição individual e coletiva em cada escalão é relevante, mais relevante se torna a defesa da posição de honra no medalheiro global. Na história do Europeu de Corta-Mato a equipa portuguesa conta com 19 medalhas de Ouro, 20 medalhas de Prata e 16 medalhas de Bronze, um número que acaba por só ser ultrapassado pelas nações da França (21 medalhas de Ouro, 20 medalhas de Prata e 23 medalhas de Bronze) e Grã-Bretanha (40 medalhas de Ouro, 37 medalhas de Prata e 25 medalhas de Bronze). Se é certo que será difícil que Portugal desça para quarto lugar, a verdade é que uma boa prestação da Rússia poderá complicar a vida portuguesa em próximos anos. Será caso para apostar no Ouro de Dulce Félix, para o ganho de uma folga, que nem as equipas este ano devem conseguir ampliar. A redução dos 36 efetivos de 2012 para os 24 atletas de 2013 compromete aspirações coletivas e leva ao limite a pressão para que ninguém desista, tendo em conta que só estarão 4 atletas por equipa, o mínimo para se pontuar coletivamente. A equipa portuguesa parte amanhã para a Sérvia, onde ainda terá se fazer a adaptação a um clima mais gelado que o português. O dia seguinte é de testes no percurso e resta o domingo das grandes decisões, quando se disputarão todas as provas deste Europeu de Crosse.
A Associação Europeia de Atletismo garantirá transmissão online, ainda que tenha garantido a passagem televisiva em 11 países. Em Portugal a transmissão acontecerá na RTP2, para as provas séniores. Este continua a ser um dos principais eventos europeus em cada ano, que motivou em 2012 5.8 milhões de telespectadores por toda a Europa.
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