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Ana Cabecinha e João Vieira garantiram Moscovo.
O Campeonato Nacional de Marcha disputou-se hoje junto ao parque da cidade do Montijo, com a disputa a fazer-se conjunta entre espanhóis e portugueses na distância de 50 quilómetros.
No ano passado a disputa conjunta dos campeonatos nacionais de marcha, distância de 50 quilómetros, fez-se disputar em Pontevedra, na altura com um traçado do agrado da maioria, mas este ano Portugal não terá recebido condignamente os atletas vizinhos, que encontraram um percurso curto (voltas de um quilómetro), com asfalto em relativo mau estado e ainda com algum sobe e desce. Os resultados individuais acabariam por não ser o maior dos interesses desta competição, que teve ainda em disputada as restantes distâncias no campeonato português.
ANA CABECINHA DOBROU TÍTULO NACIONAL E REFORÇOU MÍNIMOS ‘A’
Os 20 quilómetros femininos acabaram por ser aquilo que já se esperava, uma luta bipartida entre Ana Cabecinha (CO Pechão) e Inês Henriques (CN Rio Maior), numa altura em que Vera Santos (Sporting CP) se encontra ainda a preparar o seu percurso até ao Mundial de Ar Livre, ainda que sem esquecer Susana Feitor, que a recuperar o momento de forma esteve hoje na entrega dos prémios.
E cedo as duas marchadoras se destacaram do pelotão, onde também não tentou acompanhar o ritmo a lituana Kristina Saltanovic, que já com 38 anos de idade continuou a evidenciar bom ritmo competitivo. Entre Ana Cabecinha e Inês Henrique o ritmo não era particularmente rápido, a partir do meio da prova com Cabecinha na iniciativa e a rio-maiorense a responder-lhe à altura. ”Tive de forçar porque a Inês está muito forte”, confessou Cabecinha que teve de esperar pelos últimos três quilómetros para alcançar o tão desejado isolamento na frente, o que ainda lhe permitiu 36 segundos de vantagem na chegada à linha de meta, concluindo em 1:30.49 hora. Ambas as atletas chegariam bem abaixo do mínimo ‘A’ para o Mundial, o mesmo já não acontecendo com Vera Santos, que veio a Montijo para a sua primeira prova da distância na época. O primeiro lugar de Cabecinha dar-lhe-ia, desta forma, o lugar para o Mundial, afinal o objetivo que a portuguesa tanto pretendia e o próximo lugar disponível aparecerá já no próximo mês, no Grande Prémio de Rio Maior, onde Inês Henriques espera alcançar o seu lugar : ” Se não é aqui, pode ser em Rio Maior, estou tranquila sobre isso, acho que vou conseguir o meu lugar para o Mundial”. No terceiro lugar chegaria Saltanovic, em 1:33.41 hora, mas a terceira classificada deste Nacional seria mesmo Vera Santos, com a chegada em 1:34.56 hora, ela que chegou a ponderar não estar neste Nacional.

JOÃO VIEIRA GANHOU O SEU SEXTO TÍTULO NACIONAL DE MARCHA, EM ESTRADA
Os ritmos foram relativamente lentos nos 20 quilómetros masculinos, motivados por um João Vieira “económico”, mas também prejudicados por um percurso que foi rápido para os mais jovens, mas muito lento para aqueles que tiveram de fazer muitas voltas. João Vieira (Sporting CP), vindo de um estágio do Algarve, confessou ter vindo a este Nacional apenas e só para garantir vaga para Moscovo: ”Desde que sairam os critérios a missão era ser campeão de Portugal”. Na verdade o tempo de 1:26.36 hora de João Vieira seria o que menos interessaria na vitória do marchador português, que se encontra particularmente crítico relativamente aos novos critérios de seleção. ”Sou contra estes critérios, se é para ser assim então preferia os antigos”, disse hoje João Vieira que acusa a Direção da Federação Portuguesa de Atletismo de ter publicado os mínimos em favor de um dos treinadores :”Jorge Miguel pediu estes mínimos e a federação colocou-os com ele queria”. A crítica direta ao treinador de Rio Maior ocorre depois de alegadamente ter sido pedida ”pela primeira vez” a opinião de João Vieira, enquanto treinador de Vera Santos, mas sem que fossem atendidas as suas críticas. ”Se soubesse antes que seria assim, nem eu nem a Vera teríamos vindo ao Nacional”, conclui João Vieira, que teria preferido optar pela presença amanhã em Lugano. As críticas de João Vieira ampliaram-se também ao circuito preparado no Montijo, reforçando o seu ponto de vista : ”É por isto que eu prefiro não fazer 50 quilómetros em Portugal”.
Fora desta polémica, Sérgio Vieira (SL Benfica), que ganhara os 20 quilómetros em 2012, foi hoje segundo classificado, a 21 segundos do seu irmão, mas dentro dos mínimos para a Taça da Europa, tal como o seu colega de equipa, Pedro Isidro, que chegou abaixo da 1:27.00 hora exigida, chegando dois segundos antes dessa marca e, assim, fechando o pódio do campeonato.

OS 50 QUILÓMETROS TIVERAM DOMÍNIO DOS ESPANHÓIS...MELHOR PORTUGUÊS MARCHOU PARA ESQUECER A TROIKA...
Sem João Vieira, que há um ano foi segundo classificado em Espanha e com António Pereira a não terminar a prova, invalidando a sua ida à Taça da Europa, foram os espanhóis a tomarem o domínio dos 50 quilómetros apesar de, também eles, terem sido afetados pelo percurso, não tanto pelas condições atmosféricas que até estariam quase ideais para um bom resultado.
Ao longo da prova já os marchadores espanhóis tomavam a frente com Claudio Villanueva, Mikel Odriozola e Luis Corchete, enquanto sempre se assumiu como melhor português António Pereira, que aqui tentava regressar aos grandes palcos internacionais. O português acabaria por ceder, parando mais do que uma vez, deixando a frente do campeonato português para os três restantes portugueses presentes : Luís Gil (CS Marítimo), Pedro Martins (CA Seia) e Dionísio Ventura (FAMA Ferreira do Alentejo).
E não fosse uma boa parte final de Luís Gil, que evitou os “esticões” no ritmo, permitindo ultrapassar José Ignacio Diaz e Portugal acabaria mesmo sem qualquer atleta no pódio desta competição. Acabaria por ser ganha, não pelo multi-campeão espanhol Mikel Odriazola, mas sim pelo mais jovem Claudio Villanueva (3:55.13), enquanto Odriazola não conseguiu melhor que 4:00.05 horas. Luís Gil seria então o melhor português, com o terceiro lugar na prova, mas com o primeiro título nacional da sua carreira, ele que este ano fará os seus 38 anos de idade. Pedro Martins, já com 45 anos, completou a distância com o registo de 4:18.39 horas, ele que chegou enfurecido pela errada contagem das voltas, que indicavam que o marchador teria de fazer mais um quilómetro, lacuna entretanto resolvida. Fruto das suas oscilações de ritmo, Dionísio Ventura completou a distância em 4:25.34 horas e encerrou o pódio do campeonato português.
”Os apoios são muito poucos”, justificou Luís Gil que como funcionário público se considera também injustiçado com os cortes impostos pela Troika, em Portugal, motivo pelo qual não pensa demasiado nos Mundiais, apesar de ter sido o melhor português de hoje, mas ainda sem mínimos que lhe garantam a vaga. ”Espero representar Portugal na Taça da Europa”, disse o marchador que após recuperação de lesão terá desanimado, mas voltando ao ânimo no dia de hoje com o título, no meio de marchadores espanhois experientes e hoje em maior número que os marchadores portugueses. Deu, contudo, algum destaque a Pedro Martins, um dos mais vencedores na história da prova, com quem partilhou alguma ajuda para superar psicologiamente os 50 quilómetros : ”A companhia do Pedro nas últimas voltas foi muito importante”.

JOVENS COMPETIRAM PARA OS MÍNIMOS DAS SUAS CATEGORIAS
Apesar de provas lentas para a maioria dos marchadores séniores, os resultados apareceram com maior expressão no setor jovem, logo a começar pelo setor juvenil. Em masculinos dois marchadores correram abaixo da referência para o Mundial de Juvenis, na distância de 10 quilómetros, embora na estrada. Hélder Santos (47.42 minutos) e Miguel Rodrigues (48.08 minutos) estiveram em evidência, com mais de sete minutos de vantagem sobre o terceiro classificado (!). Em femininos, em cinco quilómetros, Edna Barros (CO Pechão) foi rápida com o registo de 24.53 minutos, uma marca que também fica abaixo do mínimo para o Mundial de Juvenis.
Em juniores os mínimos também aconteceram, ambos na distância de dez quilómetros. Para Mara Ribeiro (CN Rio Maior) e Filipa Ferreira (CO Pechão) foi uma alegria a duplicar, estando dentro dos mínimos para a Taça da Europa e abaixo da marca de referência para o Europeu de Juniores, concluindo em 49.49 e 50.40 minutos, respetivamente. Também a pensar na Taça da Europa da especialidade, Miguel Carvalho (CN Rio Maior) não deixou de conseguir esse objetivo, hoje vencendo em 44.32 minutos.

RESULTADOS
Juvenis Fem (5 Km) : 1. Edna Barros (CO Pechão) – 24.53
Juvenis Masc (10 Km) : 1. Hélder Santos (GDPCD) – 47.42
Juniores Fem (10 Km): 1. Mara Ribeiro (CN Rio Maior) – 49.49
Juniores Masc (10 Km): 1. Miguel Carvalho (CN Rio Maior) – 44.32
Séniores Fem (20 Km) :
1. Ana Cabecinha (CO Pechão) – 1:30.49
2. Inês Henriques (CN Rio Maior) – 1:31.25
3. Kristina Saltanovic (Lituânia) – 1:33.41
4. Vera Santos (Sporting CP) – 1:34.56
5. Daniela Cardoso (Leiria Marcha Atlética) – 1:45.15
Seniores Masc (20 Km):
1. João Vieira (Sporting CP) – 1:26.36
2. Sérgio Vieira (SL Benfica) – 1:26.57
3. Pedro Isidro (SL Benfica) – 1:26.58
4. Cristiano António (AC Vermoil) – 1:33.46
5. Duarte Dias (ADR Água de Pena) – 1:39.14
Seniores Masc (50 Km):
1. Claudio Villanueva (Espanha) – 3:55.13
2. Mikel Odriozola (Espanha) – 4:00.05
3. Luís Gil (CS Marítimo) – 4:12.31
4. José Diaz (Espanha) – 4:12.36
5. Ivan Pajuelo (Espanha) – 4:12.52
6. Pedro Martins (CA Seia) – 4:18.39
7. Rafael Ballesteros (Espanha) – 4:24.46
8. Dionísio Ventura (FAMA Ferreira Alentejo) – 4:25.34

Enviado Especial : Edgar Barreira (texto e fotos)
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