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A correr para 2013.
O Atleta-Digital deseja a todos os seus leitores um bom ano de 2013, onde esperamos continuar a ser um dos principais companheiros na área do atletismo.
Durante a sua tomada de posse como novo presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, Jorge Vieira destacou um dos factos a que o atletismo já se foi habituando : ”O atletismo fornece à vida e ao dia-dia das pessoas muitas metáforas”. Porque as pessoas passam a vida a correr, porque passamos o testemunho no contexto profissional, porque temos de ter resistência para concretizar um objetivo, ou até porque temos de ter engenho e arte para ir mais longe. De facto temos tantas metáforas para usar e isso faz tanto mais sentido quando já passámos pelo lado prático da questão, usando a metáfora depois.
No último dia do ano, nesta última história do frio, poderia ter optado por fazer uma retrospetiva do ano do atletismo português e mundial, afinal as poucas boas notícias que foram aparecendo para a comunidade do nosso atletismo, que vem somando derrotas fora das competições. Comecemos por aquele que é designado por Jorge Vieira como o triângulo virtuoso do atletismo : um clube, uma escola, uma pista.
Clubes : todos reconhecerão as dificuldades dos clubes em Portugal, agora que os apoios dificilmente aparecem pelos meios privados, ao mesmo tempo que se minimizam os gastos públicos com o desporto. Numa altura em que os clubes se começavam a esforçar na criação de estruturas mais organizadas, a crise financeira voltou a devolver os clubes à era da carolisse. Não deixa de ser irónico que numa altura em que os treinadores passaram a ter uma cédula, se volte ao tempo dos carolas e daqueles que tiram um pouco do seu orçamento familiar para o dar ao atletismo. Neste sentido tentam-se esforços para que o trabalho, na maior parte das vezes voluntário, destes agentes, passe a ter algum tipo de benefício para os intervenientes. Mas mais uma vez o Secretário de Estado da Juventude e Desporto adiou para próximas rondas a discussão séria sobre o assunto. A diferença de agora para alguns anos atrás estará no orçamento das famílias, o que lentamente matará clubes e grupos de treino. Noutra dimensão já aqui levantámos o problema dos clubes das ilhas, que cada vez se sentem menos integrados num país unificado e já se promete a ausência destes clubes nas competições coletivas da pista coberta, em 2013...
Pistas : entre quem defende que temos pistas a mais e quem defende que uma pista só é útil se tiver um enquadramento técnico, existe a parte real da questão. Quantas pistas homologadas terão, de facto, condições para receber eventos com dignidade? Existir uma pista é, muitas vezes, correlacionado com a ausência de apetrechamento, com más construções, com ausência de bancadas, sem setores de saltos ou sem gaiola de lançamentos. Outras há em que a substituição da relva natural para a relva sintética, para benefício de modalidades como futebol ou rugby, levam a que o tartan em torno do relvado perca o seu sentido. A muitas serve de consolo a presença de grupos de treino, mas com o decréscimo da atividade dos clubes podemos estar perante sepulturas a céu aberto que vão marcando negativamente a modalidade. Uma das mais recentes cruzes fatais foi colocada numa das pistas do município de Gaia, que foi convertida em mais um centro de treino para o futebol. Outra cruz anda a ser preparada com demasiado ruido em redor, que pode ser o fim do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, uma das melhores pistas portuguesas, que tem um dos melhores clubes portugueses, a Juventude Vidigalense e que recebeu os maiores eventos do atletismo nos últimos anos, em Portugal. A não montagem da pista coberta de Espinho foi uma das mais recentes más notícias, além do adiamento da renovação da pista da Maia, onde por sinal treinam muitos dos melhores fundistas portugueses, sujeitando-se às lesões e à falta de condições de treino. Depois temos ainda as pistas que se degradam e que não têm tido manutenção ou recuperação previstas, como são tantos casos, mas onde especificamente se podem indicar os da Pista Moniz Pereira (em Lisboa) e da Pista Carla Sacramento (no Seixal). De que serve ter “patronos” tão destacados na nossa modalidade a dar nomes às pistas?
Escola : outro rombo! Com os professores a não serem pagos pelas horas que dão ao desporto escolar, este quase que desapareceu das boas práticas de um professor de educação física. A crise no Ministério da Educação, com cortes históricos e limitadores da aprendizagem, prometem ser fatais para tantas iniciativas que foram sendo colocadas de pé ao longo dos anos. Os corta-mato escolares dependem do Orçamento de Estado de 2013 e poderão ter cortes significativos que deixam pouco espaço para a sua realização, enquanto que o Projeto MEGA pode ficar com uma “base de recrutamento” reduzida, principalmente ao nível das fases regionais. Apesar de lutar (e bem!) contra a maré, a Federação Portuguesa de Atletismo terá um forte desafio a resolver em relação à sua relação com a Escola, de onde sairam muitos dos melhores atletas portugueses da atualidade.
Analisemos mais três realidades que fazem parte do funcionamento do atletismo português, que não trazem uma esperança para 2013, que é assumido como um dos anos mais difíceis na vida do nosso país democrático : atletas, patrocínios e imprensa.
Atletas : não é novidade que o nosso historial tem sido de queixas sobre as condições de treino. Quem fala com os atletas e quem passa pela pele percebe as diferenças entre as preparações para os grandes eventos em Portugal e noutros países. Desde os doces conventuais ao atletismo, a sabedoria que se passou foi o saber trabalhar com ovos (no atletismo com poucos ovos). O ponto mais positivo dos últimos anos foi a criação de um Centro de Alto Rendimento que fisicamente promete ter longos anos de vida. Mas e se sairmos de Lisboa? E se virmos o aumento nos transportes e na gasolina? E se vemos que não temos dinheiro na conta para a compra de material desportivo? Serão estas algumas das questões dos atletas que vêm no atletismo uma carreira cada vez menos promissora, optando por não arriscar e preferirem a vertente do trabalho, onde podem obter sustento. O pior está para vir, porque não há verbas previstas para a Alta Competição já a partir de janeiro, sobrevivendo os atletas com as bolsas olímpicas, que abarcam menos atletas, ao abrigo da nova legislação. Ou seja, menos estágios, menor presença em eventos internacionais, menos patrocinadores, menos tudo e mais alguma coisa...
Patrocínios : e já que falámos nos patrocinadores, porque não referir uma das piores notícias dos últimos dias? A saída da Adidas das seleções nacionais de atletismo trouxe dificuldades ao novo executivo da Federação Portuguesa de Atletismo. A combater o tempo, a negociação com as marcas desportivas dificilmente serão frutuosas. Todas as principais marcas tiraram responsabilidades aos escritórios em Portugal, para os concentrar em Espanha ou noutros países. Essa deslocalização estratégica, é também estrategicamente uma baixa no rating para “Lixo”, aludindo à famosa medida atribuida pelas agências de rating financeiras. E não falo apenas de marcas desportivas, como outras marcas, que habitualmente patrocinavam iniciativas no âmbito do atletismo...E como pode uma marca apostar se os principais grandes eventos estão fora de Portugal? Como pode ocorrer uma aposta com as prestações portuguesas em palcos internacionais a perderam alguma qualidade individual (apesar de alguma melhoria ao nível da abrangência do atletismo completo)? E é fácil perceber que há grandes eventos de atletismo em Portugal com patrocínios e até a melhorarem os seus níveis de crescimento, muito por causa do fenómeno da corrida. E neste particular fica um alerta sobre a vontade da Federação Portuguesa de Atletismo de intervir neste processo, que tanto pode funcionar como uma base de financiamento para esta, como para o início de um diferendo com as Organizações...
Imprensa : definitivamente temos instalado um ciclo de regressão ao nível da cobertura do atletismo nacional. O recente Europeu de Corta-Mato foi uma nota clara na regressão, com Portugal a ter presente um único órgão de comunicação social, o Atleta-Digital. Dentro do atletismo deixou de haver quem se interesse, fora do atletismo os generalistas deixaram de considerar o atletismo uma prioridade. Se é verdade que o aparecimento de um canal cabo, chamado “A Bola TV”, parece ser uma oportunidade de visibilidade, não deixa de ser verdade que o verdadeiro acompanhamento da modalidade e dos seus rostos, parece ser um “cancro” difícil de curar. São os leitores que deixaram de ter vontade de ler sobre atletismo, ou são os generalistas a querer que não se fale de atletismo (para que eles deixem de ter vontade de ler)?!. A crise na imprensa é acima de tudo de identidade, porque as publicações em papel estão em crise e porque não há quem pague publicidade como antigamente...Estou convencido que se deixasse de haver Agência Lusa o atletismo estaria resumido a um resíduo ainda mais pontual, neste âmbito.
Peço desculpa por inverter a tendência e mostrar-vos tantos pontos negativos. Simplesmente as cores das boas noticias desfocariam uma análise que deve ser vista preto e branco, porque a regressão vai para outros tempos já vividos (e idos). Nos próximos dias prometemos trazer alguma retrospetiva de 2012, onde estarão incluidos alguns dos sucessos portugueses. A todos desejamos um bom ano de 2013, onde apesar da crise tentaremos continuar a trazer o que de melhor e pior existe na modalidade que todos abraçamos.
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Por : Edgar Barreira
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